segunda-feira, 2 de julho de 2012

Marrecos


Sentados à beira do lago, o caderno, o lápis e eu (embaixo do sol mesmo porque cansei de me esconder em sombras que não quero estar), escrevi estas palavras, sem saber ao certo sobre o que seriam e qual fim levariam.

Eu, aqui, pensando em me abrir, olhando os marrecos na água, encolhidos, quase como num casulo deles mesmos, emitindo aquele som (que não sei como se chama, mas parece um grito), com a voz esganiçada típica da espécie, senti inveja deles. Eles estavam ali, sem qualquer preocupação além de o que comer, ou se entram ou não na água pra aliviar o calor. Queria entrar na água, queria soltar aqueles gritos (a voz esganiçada eu já tenho), queria me enrolar no meu próprio corpo, quase como quem abraça a si mesmo na falta de alguém.

Os marrecos continuaram com os tais gritos e eu queria fazer o mesmo, sem me preocupar com quem escutaria, com o que escrevo agora, se minha letra (normalmente caprichosa) está sequer, legível, sem me preocupar com o banco sujo em que estou sentada ou se irei ficar com as marcas das alças da blusa por estar sentada ao sol.

Marcas? Isso é o que menos tem me preocupado ultimamente, estou cheia delas. A primeira é decorrente de uma travessia mal sucedida em uma vidraça, gerou um corte sobre a sobrancelha esquerda, não nascem mais pelos neste lugar. É uma falha quase imperceptível no alto da minha sobrancelha, que eu mesma faço. a segunda, aos nove anos, foi numa descida de patins, bati o queixo na grade da escola. Ainda lembro bem como e quanto chorei quando minha mãe chegou. Só chorei quando a vi. 

O sol está torrando meus ombros, irei para a sombra. Minha letra, agora, virou um verdadeiro "garrancho". Não me importo, de novo. Me levantei para mudar de lugar, o papel em que me sentei para não sujar minha calça voou. Precisei correr para alcançá-lo antes que caísse na água. Foi bom correr. Quisera eu pular na água. Meu celular tocou. Fiquei feliz. Fiquei triste. E feliz de novo. E só.

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