Se bem me lembro, se chamava fofinha. A boneca bonita que eu tinha quando criança. Ganhei de minha mãe. Minha mãe viajava e na volta, tinha uma boneca em mãos. As mãos que sempre carinho transbordaram. Seus cabelos foram cortados por minha irmã. Me enganou, disse que eles cresceriam novamente. Eu, na minha inocência infantil, acreditei. Acreditava sempre até mesmo quando a mentira era o Monstro do cobertor. Teve também a Camila (minha mãe me deu também), esta, veio com certidão de nascimento, me senti uma adulta que só. Já podia batizar. Guardei essas bonecas por anos, dei para minha irmã até que um dia, eu mesma a convenci a doar para crianças carentes. Sentimento ambíguo esse, até hoje penso que queria ter guardado para um dia mostrar para minha filha, mas ao mesmo tempo, foi bom doar para uma criança que brincaria, num tempo em que elas estavam só guardadas no armário esperando para ser mostradas à próxima geração. Tiveram também aqueles natais em que minha mãe me revelava os presentes que eu ganharia e até me deixava brincar um pouco antes da hora. Era difícil conter minha ansiedade. No meu aniversário ainda era pior, contava os dias desde o dia 20 de junho (agora lembrei da festinha que dividi com meu irmão, mas lembrei também que não me lembro dela, minhas lembranças são as fotos borradas porque alguém abriu a câmera antes da hora). Papai sempre me deu presentes escolhidos. Mas teve também aquela bonequinha que patinava. Ele me deu no natal, estava lá em cima da minha pequena sandália tamanho 32 (que nem me lembro exatamente se era uma sandália ou ou um tênis) enquanto eu ainda brigava com meus primos e irmãos sobre a existência do Papai Noel. Eu, a caçula até então e ainda a última a usar calcinhas dentre os netos de minha avó, acreditei no bom velhinho por muito tempo. Só desconfiei daquela vez em que me apresentaram a um Papai Noel grandão, com pele escura feito carvão e barba branca. Aquele eu não engoli não. E teve aquele tempo em que eu tinha medo da espuma branca que as ondas do mar faziam, pulava feito perereca! Tive medo até o dia em que quase morri afogada em Búzios e meu pai (meu herói paipai) pulou na água para me socorrer. Eu, lá, me mantendo com o nariz para a superfície com o meu modesto nado de cachorrinho, enquanto papai não chegava para me resgatar. Naquele dia soube o quanto meu pai me amava, principalmente quando jogou o boné para o alto e nem com ele se importou (logo ele, tão cuidadoso com seus muitos bonés). E era aquele de sempre mesmo, acho que seu preferido. E logo em seguida, eu lá, semi afogada, ainda ofegante, colocando a respiração dos meus pulmões magrelos em dia, tive que que aguentar meu irmão (tão querido) rindo uns litros de mim. Foi no dia em que ele pisou na água viva. Até hoje não sei se ele colocou xixi no lugar, sinceramente, prefiro nem saber... Logo ele, olha só, que pulou no banquinho (de 30 com de altura) só porque viu uma cobrinha rastejando sorrateiramente ali por perto, isso já faz tempo, foi quando papai ainda tinha aquela casa menor, antes da fazenda. Meu irmão cresceu, mas manteve os medos de criança, junto com a ternura que ele tem no olhar e no abraço. Minha irmã, aquela do mesmo nome, por outro lado, essa não cresceu não. Diz meu irmão que a gente cresceu por questões de sobrevivência (e eu concordo com ele). Ou a gente crescia ou não chegávamos à adolescência. Minha irmã, que fingia ter medo do monstro do cobertor, é amada por mim, também. Não deve ter sido em vão essa repetição de nomes. Acho que temos mesmo uma ligação nesse rumo aí. E essa história? Sempre tão comum pra mim, tornou-se motivo de popularidade na adolescência e até hoje gosto de contar. Engraçado pensar no passado, vira e mexe me vem a lembrança dos cachinhos do meu irmão penúltimo. Cortados, nunca mais voltaram. Me lembro bem.
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