Hoje tenho um pouco mais do que um quarto de século. Se viver 100 anos, já vivi um pouco mais de 25% da minha vida. Estou justamente nesse momento em que se percebe que o círculo de amizade é menor e, ainda assim, os antigos amigos fazem falta. Estou no momento em que é preciso organizar minha rotina para viver e ver quem quer me ver. E percebi que isso está cada vez mais difícil. Mas constatei que passe horas, dias ou anos, quem é importante, continua sendo. E cada vez mais, mesmo quem chegou por “último”. E principalmente quem chegou por último.
Estou naquela hora em que tanta gente, já passou a ser gente nenhuma. E que quantidade, cada vez mais, incomoda. Vi que o dedinho molhado na bebida do papai já não faz tanta graça. É preciso de muito mais, pra se rir muito menos. É aquela hora em que se aprende a expressar um sentimento de maneiras diferentes. Um que nem sabia que existia. Ou talvez “desaprenda” a sentir. É quando se ri mais baixo e chora com menos lágrimas, e a barriga já não dói com uma gargalhada, mas as lágrimas arranham quando escorrem. E um beijo não sara.
Estou numa idade que já perdi medo de escuro há tempos, na verdade, até gosto. E descobri que tentar ver outros olhos no escuro, é uma das melhores coisas que tenho feito.
Estou vivendo um momento em que quero conhecer o que já conheço melhor. Em que tudo que eu sei e o que eu não sei, se misturam num mar confusões e certezas. Naquela hora em que felicidade tem nome. Na mesma hora em que se sabe o que se sente, em que se vê o que é sentido, mas às vezes, não faz sentido, mesmo que faça total sentido. Em que se percebe o sentido das coisas, quando elas passam a perder o sentido. E que repetir a palavra “sentido” tantas vezes "atende" ao que quero dizer por que as definições de sentimento e nexo se misturam, talvez de maneira proposital por quem quer que tenha sido que inventou essas palavras e seu significado.
Exatamente na hora em que você entende porque seus pais trabalharam tanto e te mandaram estudar e você agradece por isso. Mesmo que não tenha obedecido sempre. Em que você tem certeza de todas as dúvidas que tem e aprende a viver com isso.
Não estou na crise da meia idade, ou dos trinta. Estou na crise de um ano depois da metade de meio século. Na hora em que você se lembra da lembrança que tinha do que imaginava ser quando tivesse a idade que se tem, e o quão velha seria. E quando você cresce, percebe que ninguém é velho pra si mesmo, até quando o espelho diz o contrário. Estou na crise da meia-meia-idade-mais-um. Momento em que posso me sentir genial, inteligente, burra e “tapada” (tudo ao mesmo tempo) e me vejo alcançando coisas que nunca imaginei querer. Ao mesmo tempo em que ganhei aquilo (ou aquele) que estava nos meus sonhos de menina.
É na hora em que se percebe que a distância realmente chega longe. E dói. É quando você se vê dizendo que “era feliz e não sabia” (até quando sabe que sabe), mesmo que o tempo cronológico expressado pelo tempo verbal de "era", não passe de alguns instantes, e que conseguiu ser mais feliz do que esperava ser possível, no momento seguinte. Mas o passado ainda traz saudade e o futuro ainda dá medo.
Toda essa mudança me lembra de quando eu tinha treze e só queria fazer quinze pra ter festa e, de repente, a festa já não fazia o menor sentido. E depois, como eu queria fazer dezoito, só pra aprender a dirigir. E como três anos passaram rápido.
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