segunda-feira, 18 de junho de 2012

Noite em claro

Na penumbra do quarto escuro propositalmente redundante, Ela se deitou com os pés pra fora, mal coberta e com qualquer roupa. Os braços caídos, após o exagero do álcool consumido, deitada de bruço, segurando os soluços do que havia acontecido. Sem lembranças do que havia se queixado, queria ficar em paz, queria pensar em nada mais, se pudesse, comemoraria o dia de finados. E ainda deitada, antes do amanhecer, de uma noite mal dormida, Ela ficou ali, estática, com a cabeça no travesseiro, apenas escutando uma música que tocava ao fundo e, que, na verdade, Ela nem saberia dizer se era real ou fantasia... Não passava nada por sua cabeça, nada vezes nada, se isso for possível, nada a não ser o previsível. 
Qualquer um pode passar uma noite em claro, e isso não muda, aqui ou em outro lugar, ele ali, ela, ou quem quiser se manifestar. Com o passar das horas, e a chegada do dia, Ela cantarolando uma música inexistente, com uma voz fraca, desafinando, quase ausente, anexa ao suspiro e a hiperventilação permanente... continuava deitada, apática, sem movimentar-se nem para diminuir o incômodo da câimbra que começava a sentir. Ela não se importava, não com isso. Abraçada ao travesseiro, como num romance americano, uma gota caiu, daqueles olhos acostumados a sorrir, que nunca choravam, pois haviam aprendido a disfarçar bem, sempre escondendo de alguém. E pela décima vez a primeira vez, Ela chorou, sem colo, sem receio, um choro modesto, verdade, mas isento de qualquer falsidade, ''visceral'', como nunca igual, Ela chorou. Aquela lágrima, a única derramada pelo mesmo motivo, de certa forma, bem diretivo, desceu, cresceu, na medida do que diminuía, sumia, desaparecia junto com a vontade de não querer o que se quer, de desejar o fim do bem-me-quer. 
Junto com as mãos que limpavam a maquiagem borrada, sempre usada, Ela podia sentir o cheiro de um perfume jamais esquecido, mesmo que adormecido, nunca banido. E isso era bom. Ela, aquela que tem o pior olfato possível, sentiria, de longe, bem longe, mais longe que "tão, tão distante", o cheiro do aroma do bem, de alguém. Ao fundo, desde o início, o som do violino, balbuciando qualquer coisa que Ela não queria ouvir, mas a única coisa, agora, ali.

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