sábado, 2 de junho de 2012

O sonho que ele narrou pra mim

Ela acende um cigarro, com aquele ar superior de quem quer mostrar a inferioridade do outro. Meados de 1930, cabelos curtos, usava um vestido com barra de franjas, preto e um batom vermelho, com a pele branca e os cabelos negros, como a mãe, mas lisos como os do pai. Ele a olha, de longe, com aquela camada espessa de gel nos cabelos, partidos para o lado esquerdo, como de costume, os cabelos claros, assim como os olhos, que herdou dos avós. Ao toque do piano, tocado com mãos longas e unhas pintadas de vermelho, seguido do tom suave da voz, ela olhava os olhos de quem a via, mil coisas pensava, mil coisas sentia... Cantou  algo meio desconhecido pra quem estava presente no recinto, mas cativante, envolvente, flutuante.... Em um determinado momento, deixou as teclas pretas e brancas do piano de lado, pegou o microfone, envolto com uma espuma grande e preta, como era antigamente, e continuou a música, agora à capela. Ele continuara ali, sentado no mesmo lugar, com o copo de Whisky, já na segunda dose, sem misturas, sem gelo, apenas o líquido amarelado com o cheiro forte característico. Ele estava ali, ouvindo o som da voz dela, aquela voz, meio fina, meio rouca, meio sem timbre certo, e ela permaneceu, por mais alguns minutos, repetindo as estrofes da música, retardando seu fim, até que a luz se acendesse e as cortinas se fechassem. 

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